domingo, 13 de novembro de 2011

a cidade está menos inocente


 acordei na quinta feira, e o céu estava com sono.
tanta nuvem, tanta fuligem, tanta 'nebbia'. 
ainda não neva
e as pessoas já estão geladas. 
não todas.
muitas ainda secam as tardes sob a luz. 
essa obtusa luz que resta. 
poucas  ainda são luzes aqui. 
resta um frio sólido 
chegando nos olhos das pessoas.
parece que até no verão é assim. 
as pessoas não se olham.
as pessoas riem, as pessoas comem, as pessoas festejam. 
as pessoas não sabem, porém, o que é o 'olhar'. 

temperei a tarde com doçura. 
e assim muitas flores crescem no jardim. 
folhas caem
e as floriculturas se alegram com as muitas vendas.
as pessoas querem comprar perfumes. 
as pessoas querem se encher de  cores. 
as pessoas fumam para viver a plenitude
com o cinza e a fumaça. 
as pessoas se querem e se distanciam. 
as pessoas envelhecem sem lembrar dos nomes dos avós. 
as pessoas se esqueceram do sabor do sal 
e da cor da rosa, rosa. 
as pessoas, deste jardim, ainda procuram por doçura. 

acenei para o destino, e ele não me disse adeus. 
talvez não seja necessário dizer nada. 
ainda existem expectativas 
e não uso um diluidor para vivê-las. 
as pessoas ainda querem viver. 
as pessoas ainda dissimulam seus dias. 
as pessoas teorizam a realidade, 
mas preferem ser ficção. 
as pessoas necessitam de outrem.
as pessoas são incompletas.

construo a necessidade com o que lhe for necessário. 
ou 
construo o necessário conforme a necessidade. 
entre as duas teorias, fico com a mais necessária.
construo, pois, 
com conta gotas
com colheres
com tesouras 
com pregadores de roupas. 
com pessoas.